O tempo e o espaço segundo David Harvey – Uma reflexão sobre o livro “Condição Pós-Moderna”

Nas páginas finais de sua explanação sobre a relação entre Fausto e a Modernidade, Marshall Berman dedica-se a descrever o “Homem Fáustico” e dá atenção, principalmente, às chamadas “relações pseudofáusticas”. Ou seja, o autor utiliza-se do contexto da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria para lembrar as obras faraônicas e a visão propagandística difundidas, por exemplo, por Stalin e Hitler, que promoveram a morte de milhões de pessoas com finalidades falsamente fáusticas: nesse caso, com a política voltada para a estetização, e não em benefício dos interesses da população.

O contexto a que Berman se refere nesse epílogo antecede o surgimento do chamado pós-modernismo, caracterizado basicamente por uma revolta contra o progresso e a institucionalidade – universidade, tecnologia, ciência. É nessa conjuntura que surgem vanguardas artísticas como o futurismo, o surrealismo e o dadaísmo, que promovem a desconstrução dos valores da sociedade moderna e diversos questionamentos sobre o ideal fáustico de desenvolvimento.

Esse momento de transformação foi o objeto de estudo do geógrafo marxista inglês David Harvey em seu livro Condição Pós-Moderna. Na terceira parte da obra, intitulada A experiência do tempo e do espaço, o autor descreve a modernidade como uma fase de dissolução do tempo e do espaço, em que o pensamento é baseado na coletividade (“bem comum”). Na pós-modernidade, também ocorre a dissolução do espaço e do tempo, cada vez mais aceleradamente, mas o foco do pensamento torna-se mais “individual”. Um bom exemplo é a internet, que parte do princípio de uma conexão da população mundial através do computador, mas traz consigo a personalização de conteúdos e uma mudança de hábitos que leva a um isolamento cada vez maior dos indivíduos e se afasta das tradicionais noções de coletividade.

Harvey compara as teorias sociais e a teoria estética, e afirma que esta última “procura as regras que permitam a veiculação de verdades eternas e imutáveis em meio ao turbilhão do fluxo da mudança”. Essa frase se refere aos ideais tipicamente modernos – de progresso e constante transformação -, que passam a ser substituídos por uma nova realidade, de “espacialização do tempo”.

O filósofo alemão Martin Heiddeger também é utilizado por Harvey em suas reflexões sobre o sentido a angústia provocada pela transformação tempo-espaço. Heiddeger baseia sua análise no nacionalismo dos pré-socráticos, e explica a ascensão do regime nazista na Alemanha na enfatização do poder do mito (raça, sangue, território, etc).

Em seguida, no capítulo Espaços e tempos individuais na vida social, Harvey cita quatro autores que complementam a representação espaço-tempo: o primeiro, Foucault, trata o espaço como um local de poder sobre o qual são exercidas repressão, restrições e socialização. No entanto, ele prevê “heterotopias”, ou espaços particulares de resistência e liberdade – o corpo, por exemplo. Os outros três autores seguem linhas de raciocínio semelhantes entre si: basicamente, de Certeau trata os espaços sociais como mais abertos à criatividade e à individualidade humana; Bachelard dirige sua atenção para a imaginação, o “espaço poético” em que são projetados os desejos do tempo e do espaço; Bourdieu, por fim, relaciona a submissão e a dominação aos diferentes campos sociais/instituições e à fragmentação do sujeito em diferentes habitus.

O quarto capítulo, intitulado Tempo e espaço como fontes de poder social, traça uma relação entre o poder, dinheiro, e o tempo e o espaço. Para ilustrar, o autor se utiliza de uma frase de Marx que diz: “Economia de tempo: a isso se resume, em última instância, toda economia”. Com efeito, e cada vez mais, o mundo capitalista nos impõe ritmos acelerados e segmentações para a vida, refletindo os sistemas de produção fabris. Mas, aqui, acredito que Harvey preveja uma possível solução para o problema. Se o dinheiro não tem um sentido independente do tempo e do espaço, alterando os modos de uso destes dois, podemos alterar os sentidos do dinheiro.

Ora, páginas à frente ele vai falar sobre o poder dos movimentos sociais na configuração das visões de tempo e espaço. Com efeito, o autor afirma: “Em suma, as mudanças nas qualidades objetivas do espaço e do tempo podem ser, e com frequência são, efetuadas por meio da luta social”. Se a burguesia controla os valores que partem do tempo gasto por trabalhadores para gerar um produto, como afirma Marx, “A disciplina inflexível dos horários de trabalho, dos direitos de propriedade organizados de maneira imutável e de outras formas de determinação espacial gera amplas resistências por parte de pessoas que querem eximir-se dessas restrições hegemônicas do mesmo modo como outros recusam a disciplina do dinheiro”.

Por Daniel Giovanaz e Thiago Moreno

    • Camila Garcia
    • 11 abril, 2011

    Não sei se isso só aconteceu comigo, mas durante todo o texto, me voltava à mente aquele trecho do Goethe de Fausto, em que o personagem escolhe e escreve um novo princípio – “No princípio era a Ação”.
    A explicação dada por Harvey sobre o tempo e o espaço é também uma explicação da razão pela qual Fausto tende a mudar tudo ao seu redor, já no final de sua história. A construção da cidade no pântano, nada mais é que a alteração do espaço e da sociedade que ali vive – a ideia de evolução que o personagem traz consigo não é nada mais além de uma ideia própria de transformação, de manipulação do tempo.

    • Ana Carla de Brito
    • 15 abril, 2011

    Lembro-me de que enquanto conversávamos sobre o texto do Harvey foi dito que o desenvolvimento tecnológico está atrelado a um sentimento mítico e que poderíamos cogitar que a queda da religião na modernidade contribuiu para desvarios da humanidade como a ascenção de Hitler e sua acolhida pelo povo alemão – como se ele tivesse substituído os mitos. Então foi dito que a humanidade sempre tem seus tótens. Bem. lembrei-me de um artista americano – o David Smith – que nos anos 50 fez algumas esculturas de metal e as colocou em determinadas ambientes naturais dos Estados Unidos.

    http://en.wikipedia.org/wiki/File:David_Smith,_The_Banquet,_1951_%28Kykuit%29.jpg#globalusage

    A obra de arte é polissêmica, o que significa que pode ser olhada de diversas formas, uma das leituras possíveis foi a apreciação da crítica de arte Rosalind Krauss. Ela diz que essas esculturas são tótens com o sentido interditado, pois a humanidade perdeu seus tótens e com a guerra (possivelmente as grandes guerras mundiais) não temos mais tabus.

  1. Bem, como não podia deixar de ser, o texto de Thiago e Daniel seleciona trechos do texto de Harvey. São escolhas que permitem inúmeros adendos e comentários.

    Primeiramente, a dicotomia entre tempo e espaço representada respectivamente pela teoria social e teoria estética. A teoria social traz em seu bojo a historicidade e o tempo como categoria para explicar as metamorfoses da vida humana. A tentativa é reduzir o espaço por categorias de deslocamento e velocidade, fundamentais para as transformações culturais e econômicas dos últimos três séculos. A teoria estética busca uma intemporalidade capaz de identificar valores permanentes, essenciais, eternos. A arte seria a representação mais cabível, mas o mito também dá essa sensação de congelar o estar para evidenciar o ser.

    Um pitaco sobre o comentário de Harvey a Heidegger. Ainda que haja indícios da ligação do filósofo ao Nazismo primevo, não há como afirmar que ele tinha por objetivo justificar ou explicar o Nazismo por sua teoria. Heidegger escreve sua obra seminal em 1928 (O Ser e o Tempo) e não há menções ao Nazismo nela. Importante a evidenciar é a angustia de Heidegger frente à hegemonia da aceleração, da tecnologia e da dissolução de valores filosóficos e estéticos.

    No capítulo 13 há duas tabelas (uma tipologia de tempos sociais e uma grade de práticas especiais) que sintetiza bem as interrelações de tempo e de espaço no cotidiano.

    O capítulo 14 traz referências ao processo de tempo e espaço nos conflitos de classe, nas transações econômicas (em especial o dinheiro) e nas decisões políticas. Como, inclusive, as transformações ocorridas no capital produtivo alteram o processo de representação nas sociedades.

    Agradeço aos alunos pela síntese de um texto difícil de sintetizar.

    • Mariana Chiré
    • 18 abril, 2011

    Bom, como não fui nessa aula o texto acabou me criando mais dúvidas do que reflexões sobre pontos que estivessem mais claros para mim. Porém, logo no início do texto de Harvey, teve um parágrafo que me chamou atenção, principalmente após a leitura do texto de Freud na parte dos prazeres,libido, desejo, que é quando Harvey comenta sobre como nossas decisões (ligadas aos prazeres) alteram o percurso do tempo (Pg.188).
    Ali é comentado sobre a nossa imcapacidade de adiar prazeres e as consequências disso no desenvolvimento da sociedade.Freud também coloca a questão do prazer vinculada a uma necessidade humana, o que acaba remetendo a ideia que isso faz parte do desenvolvimento da sociedade.
    É correto ligar essas duas passagens dessa forma? Ou melhor, essas passagens tem algum tipo ligação?
    Achei interessante comentar isso pelo assunto que discutimos na última aula…

  1. 13 junho, 2011

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